O sonho de passar batom

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As badaladas praias de Atalaia, Coqueiro e Maramar, na costa do Piauí, atraem turistas de todo o Brasil e do mundo. Mar azul, ventos bons para a prática de esportes e resorts luxuosos compõem o cenário ideal para férias paradisíacas. Não muito longe dali, a apenas 70km da costa, encontra-se o povoado Brejinho, quase na fronteira com o Ceará.

Com cerca de 8 mil habitantes, o município em pouco lembra a badalada beira-mar. As ruas de terra batida e as casas simples de taipa abrigam pessoas que vivem basicamente da agricultura. Em uma dessas casas, mora uma menina com um sonho aparentemente banal para a maioria das brasileiras: usar maquiagem e, em especial, passar batom.

A maquiagem, geralmente associada à beleza, à exaltação do lado feminino, é usada quando uma mulher quer destacar algo em seu rosto. E isso é exatamente o que a jovem Weslane, de 7 anos, menos quer: chamar ainda mais a atenção para sua cara, por conta da fenda que vai do lábio até o nariz.

Nascida com fissura no palato também, a filha mais nova de um casal de agricultores não é uma exceção na família; há outros casos de má formação facial tanto do lado materno quanto paterno.

Ainda assim, sua mãe, Dilene, não imaginava que a filha pudesse nascer com fenda, visto que seus dois filhos mais velhos nasceram sem problemas de saúde e o ultrassom feito durante a gravidez de Weslane não mostrou nada. “Ela nasceu em casa, como é tradição na minha terra, então quando a parteira me deu a notícia, fiquei bem surpresa”, confessa. Mesmo assim, Dilene enxergou a situação com otimismo. “Fora a fissura, a Weslane veio com saúde e isso é o mais importante.”

Brejinho dispõe de apenas um posto de saúde, onde às vezes faltam até medicamentos básicos, como pomadas. Por isso, conseguir a cirurgia reparadora para Weslane significava, necessariamente, enfrentar horas de estrada até a capital do Piauí ou então dos estados adjacentes em busca do tratamento especializado.

Weslane foi crescendo, entrou na escola e fez amizades. Boa aluna, gosta das aulas de português. Mas a fala fanha – por conta da fenda palatal – e o lábio aberto fazem com que ela tenha vergonha da aparência.

Até que um dia, uma conhecida de Dilene, que mora em Fortaleza, soube que a Operação Sorriso iria à cidade para realizar um mutirão de cirurgias. Na hora, mandou uma mensagem à mãe de Weslane, perguntando se ela não queria trazer a garota.

O convite foi aceito, mas a família deveria superar mais um obstáculo: os pais não tinham dinheiro para pagar a passagem de ônibus até a capital do Ceará, que custava cerca de R$ 70. Mais uma vez, a família contou com a ajuda de conhecidos para conseguir arrecadar o montante necessário. “As pessoas do povoado se mobilizaram. Fizeram vaquinha, rifa... Muita gente deu de bom coração também.” E assim, conseguiram o suficiente para a viagem.

Mãe e filha embarcaram para Fortaleza, enquanto o pai ficou cuidando das outras duas crianças em casa. A conhecida as hospedou na capital até o dia da triagem dos pacientes.

Ao chegar na triagem, mais um choque. “Não esperava que tivesse tanta gente com o mesmo problema que a minha filha. Tinha até adulto”, lembra Dilene. “Só pensava: Meu Deus, será que a minha filha vai ser escolhida?”

A angústia terminou no dia seguinte, ao receber a notícia de que Weslane havia sido uma das 58 pacientes selecionadas para a cirurgia. E apenas 2 dias depois, aconteceu a tão esperada operação. Ao reencontrar a filha na ala de pós-operatório, Dilene confidenciou: “Parece outra pessoa, nem acredito!”

Com o sonho da cirurgia realizado, faltava ainda outro, talvez até mais importante. Sabendo que Weslane queria muito ser maquiada, a equipe da Operação Sorriso comprou um estojo de maquiagem. Uma das voluntárias do time surpreendeu a jovem na manhã seguinte, antes dela receber alta, para passar não só o tão sonhado batom nos lábios, como também a sombra nos olhos, rímel e blush! De quebra, Weslane ainda ganhou uma boneca de pano como presente de aniversário antecipado de 8 anos, que seriam comemorados no final do mês.

A menina saiu do hospital com um novo sorriso e um brilho no olhar que não se via antes. A mãe conta que ainda não mandou foto para os familiares do ‘novo rosto’ de Weslane; queria fazer surpresa até chegar em casa.

Além da boneca e do novo sorriso, Weslane levará de volta para Brejinho também uma recém-adquirida confiança: a de que foi, é e sempre será uma menina linda, com ou sem maquiagem.

we2.jpgSe você gostou dessa história e quer ajudar mais crianças a terem a mesma oportunidade que a Weslane, clique aqui para fazer uma doação.

“Toda criança que nasce com deformidade facial é nossa responsabilidade. Se nós não cuidarmos dessa criança, não há nenhuma garantia de que outra pessoa o fará.”

- Kathy Magee, cofundadora e presidente da Operação Sorriso