A resposta é um sorrisão

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Duas e meia da tarde. O calor paraense não dá trégua. Com o sol brilhando forte, o termômetro batendo próximo dos 35 graus e nenhum sinal de brisa, um garotinho de semblante sério aguarda pacientemente sentado no colo da mãe.

“135”, grita uma jovem da equipe da Operação Sorriso.

Caroline pega o menino de 8 meses no colo e se dirige à mesa onde os prontuários dos pacientes estão sendo preenchidos. Após a longa viagem de quase 10 horas de ônibus e mais tantas horas de espera na triagem, a transformação de vida do pequeno Bernardo está prestes a começar.

Primeiro filho do jovem casal Caroline e Eden, Bernardo nasceu com fissura bilateral no lábio. O ultrassom realizado durante a gravidez nada revelou, pois o menino estava virado de costas no momento do exame.

Sem outros casos na família, a surpresa com a má-formação foi enorme. “Quando tiraram ele da minha barriga, os médicos não falaram nada. Só lembro de uma enfermeira pegar ele e pedir pra outra levar o Bernardo pra UTI”, recorda a mãe. “Essa enfermeira me disse de um jeito tão assustado que o meu filho tinha nascido com uma deficiência na boca, que cheguei a pensar até que ele tivesse nascido sem boca”, diz Caroline.

A fenda labiopalatina pode ter várias causas e a explicação dada à mãe pela enfermeira – que ele tinha nascido assim devido à incompatibilidade do tipo sanguíneo dos pais – a deixou ainda mais confusa.

No dia seguinte, mais tranquila, Caroline resolveu entender melhor sobre a má-formação que acometeu seu bebê. Visitou várias páginas de internet e assistiu diversos vídeos sobre o assunto. “Fui descobrindo várias coisas sozinha e isso me tranquilizou bastante naquele momento”, lembra.

Uma das maiores dificuldades encontradas por muitas mães de fissurados – a alimentação – também foi superada com as informações que ela buscou. “Não tive problema para dar de mamar. E dá pra perceber isso, né?”, fala, rindo e fazendo força para levantar o garoto que esbanja saúde.

Ainda na triagem, Caroline confessa que precisou segurar as lágrimas ao ver tantas outras crianças iguais ao seu Bernardo. Mas foi um quase-choro bom. “Me senti em família. Percebi que as mães ficavam se olhando, todas com os filhos no colo e o mesmo sentimento. Olhar de mãe é sempre assim; a gente se entende.”

O problema é quando eles não estão em lugares com tantos fissurados, como a cidade onde estão morando agora, Medicilândia (PA). Às vezes, a curiosidade natural faz com que as pessoas perguntem o que causou “os cortes” no lábio de Bernardo – se ele caiu, se é contagioso, se o buraco vai fechar sozinho...

E também há aqueles que são menos delicados e lançam olhares ou fazem gestos em direção à boca do menino. “Um dia, um rapaz ficou apontando pro Bernardo e ele respondeu da melhor forma que sabe: com um sorrisão!”, relembra a mãe.

Quando ainda tinha poucos meses de vida, a família recebeu a recomendação de tentar conseguir a cirurgia reconstrutiva em Belém. Mas como sabiam que havia uma fila grande e que a Operação Sorriso estaria em Santarém no meio do ano, decidiram aguardar.

E a espera valeu a pena, pois o filho de Caroline e Eden foi um dos 63 pacientes selecionados para a cirurgia reconstrutiva gratuita com a equipe da Operação Sorriso.

Dois dias depois da triagem, Bernardo estava pronto para entrar no centro cirúrgico. Um último adeus à mãe na porta da sala de psicologia e lá se vai ele, nos braços do anestesista. Algumas lágrimas escorrem dos olhos de Caroline, mas ela garante que são de felicidade. “Sei que essa cirurgia vai mudar tudo na vida dele.”

Em pouco menos de 2 horas, ela é chamada novamente ao centro cirúrgico, mas dessa vez para ver o novo rostinho de seu garoto. E, na hora do reencontro, mais lágrimas. “Ele tá mais lindo ainda, ficou perfeito! Muito massa!”, diz, enxugando o rosto.

Ao ser questionada se faria uma surpresa e deixaria que os familiares e amigos só vissem o novo sorriso dele ao vivo, ela confessa, rindo, que não ia aguentar. Poucos minutos depois, a foto de Bernardo com a fenda labial já costurada está no grupo da família do Whatsapp.

A felicidade estampada nos olhos de Eden e Caroline é comovente. Eles não se cansam de agradecer aos voluntários que dedicaram seu tempo e trabalho para transformar as vidas dos pacientes.

E, com um último agradecimento, eles se preparam para voltar para casa e deixar que Bernardo siga exibindo seu sorrisão, mas sem ser como resposta a uma provocação, apenas para encantar mesmo!

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Bernardo, 1 ano depois da cirurgia

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“Toda criança que nasce com deformidade facial é nossa responsabilidade. Se nós não cuidarmos dessa criança, não há nenhuma garantia de que outra pessoa o fará.”

- Kathy Magee, cofundadora e presidente da Operação Sorriso