O SONHO DE MOSTRAR O ROSTO

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A cirurgia reparadora de fissura labiopalatina transforma vidas. Isso não é segredo para ninguém. Mas cada vez que somos confrontados com histórias como a do Fernando, atualmente com 11 anos, que em apenas um ano passou de um menino tímido, que escondia a fissura no rosto com uma chupeta, para um garoto extrovertido e cheio de sonhos, fica impossível não se emocionar.

A gravidez de Fernando foi uma surpresa em todos os sentidos. Primeiro, por conta da grande diferença de idade em relação aos irmãos mais velhos. Ele é o 3º filho da agricultora Aldenora, que engravidou pela primeira vez com apenas 14 anos. Em um espaço de 20 anos, vieram mais 3 crianças, entre eles Fernando.  

E o segundo motivo que surpreendeu a todos foi que não havia nenhum caso de fissura labiopalatina nem na família de Aldenora, nem na de seu marido. Inclusive, ela lembra que em um dos exames de pré-natal, quando o médico olhou o ultrassom, disse que seu bebê tinha um problema no dedo. “Hoje acho que o médico sabia o que era, mas não quis me contar”, recorda.

O momento do parto também foi marcante. Aldenora lembra que estava lavando roupa, quando desmaiou. Ela foi levada ao hospital e o parto aconteceu. Como nunca tinha visto uma criança com fenda antes, ficou em choque ao receber Fernando no colo. Além da abertura no lábio, ele também tinha o palato aberto. “Era a única criança da cidade assim”, diz ela, que na época morava em Coelho Neto (MA).

A falta de informações fez com que ela tivesse que aprender sozinha a cuidar do garoto. “Ele não conseguia mamar, então peguei uma mamadeira e improvisei o bico, porque já fazia quase 3 dias que o Fernando não mamava”, conta.

Aldenora trabalhou durante quase 30 anos em uma mina de carvão e ainda fazia bicos como vendedora para aumentar a renda. “Lembro até hoje do pó que ficava na minha pele depois do trabalho”, diz. Os muitos anos na mina trouxeram graves consequências à sua saúde. Ela precisou se afastar do trabalho e hoje precisa tomar vários remédios.

Para complicar ainda mais a situação, seu marido teve problemas com o álcool e acabou abandonando-os. Sozinha e sem o emprego que sustentava a família, ela passou a depender da ajuda governamental.

Como a vida em Coelho Neto não estava fácil, eles se mudaram para Medicilândia, no Pará. Fernando foi matriculado na escola e, apesar de ser bom aluno, enfrentou a dura realidade da maioria das crianças nascidas com fissura: o preconceito. ‘Coelho’, ‘dentinho’ e ‘boquinha’ eram só alguns dos apelidos maldosos que ouvia dos coleguinhas. “O Fernando ficava bravo e queria brigar com as crianças. Eu conversava com ele e explicava que não podia ficar assim”, diz Aldenora.

Com o tempo, as crianças foram se acostumando com a fissura no rosto e as provocações diminuíram. Atualmente, ele está na 5a série e gosta muito de matemática. “O Fernando sabe contar até 100 e tem amigos”.

Apesar dos avanços na escola, ele ainda tinha dificuldades com a alimentação por causa da fenda no céu da boca. Como engasgava facilmente, só comia mingau. E, de preferência, na mamadeira, que levava todos os dias para a escola. A fala era igualmente prejudicada pela abertura no palato. “Às vezes não entendo o que o Fernando diz. Se ele precisa repetir muitas vezes, se zanga e desiste de falar.”

Conforme cresceu, a aparência também voltou a ser um problema, especialmente quando Fernando precisava circular por lugares com gente desconhecida. Por isso, passou a andar sempre com um pano ou uma chupeta para cobrir a boca.

Inclusive, foi dessa forma que ele chegou na triagem de pacientes da missão de Santarém (PA), em agosto de 2017. O menino de 10 anos manteve uma fraldinha em frente à boca até uma voluntária lhe presentear com uma máscara cirúrgica.

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No dia seguinte, Aldenora e ele receberam com alegria a notícia de que Fernando havia sido um dos 63 pacientes selecionados para operar. O menino nem comeu na véspera da internação, tamanha ansiedade!

No dia da operação, em uma conversa com a fonoaudióloga antes de entrar no centro cirúrgico, Fernando entregou a chupeta para ela e disse que pegaria de volta depois. Para a alegria de Aldenora, da fono e de todo o resto da equipe, após a cirurgia para fechar o lábio, ele nunca mais pediu a chupeta de volta.

Em 2018, ao retornar para mais uma missão, a equipe de voluntários ficou impressionada com a transformação de Fernando. O menino que um ano antes escondia o rosto, agora estava sorridente e brincalhão. Ele havia voltado para fazer a consulta pós-operatória de um ano e também para tentar a cirurgia reparadora do palato.

Já durante a triagem, ele interagiu com outras crianças e até arranjou uma namorada! “As amizades aumentaram, ele não tem mais vergonha... Mudou muita coisa”, diz Aldenora. “Meu sonho agora é que a voz dele melhore.”

Mais uma vez, Fernando foi selecionado para operar. Um dia antes da cirurgia, ele jogava bola alegremente pelos corredores do hospital. A cada ‘gol’ marcado, ele corria para um canto, dava um salto e jogava os braços para baixo, imitando a comemoração de seu ídolo, Cristiano Ronaldo. “Quero ser jogador de futebol”, contou.

A cirurgia correu bem e, no dia seguinte, Fernando teve alta do hospital. Aldenora também saiu com um pedido da equipe médica: garantir que ele fizesse o tratamento complementar fonoaudiológico e odontológico.

Ao retornar para Medicilândia, Fernando começou o tratamento e, apesar da distância, ele tenta manter a regularidade. Ainda assim, a família espera ansiosamente a próxima ida da Operação Sorriso a Santarém. “Antes pensava que a gnete nunca ia conseguir a cirurgia e, em um ano, ele já fez duas. Então vamos continuar voltando, porque eu quero meu menino cada vez mais feliz!”, finalizou.

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Se você gostou dessa história e quer ajudar mais crianças a terem a mesma oportunidade que o Fernando, clique aqui para fazer uma doação.

“Toda criança que nasce com deformidade facial é nossa responsabilidade. Se nós não cuidarmos dessa criança, não há nenhuma garantia de que outra pessoa o fará.”

- Kathy Magee, cofundadora e presidente da Operação Sorriso