O MENINO E O SORRISO

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Oito da manhã, temperatura na marca dos 27 graus. Apesar de ser inverno em Porto Velho, o sol forte arde na pele de quem está na rua. Talvez por isso mesmo não se veja tanta gente caminhando pelas vias abertas do Hospital Santa Marcelina, instalado em uma antiga fazenda, na zona rural da cidade.

Dentro de um dos prédios do Hospital, o ar mais geladinho e um zanza-zanza enorme de pessoas contrastam com a calmaria das ruas.

A triagem dos pacientes da Operação Sorriso acabou de começar. Pais e mães andam agitados pelo salão com malas, sacolas e bolsas. Há um misto de ansiedade e esperança nos olhares.

Em um canto, uma moça aparenta calma, enquanto seu filho se divide entre um brinquedo e o colo da mãe. Ele é Pietro de Deus, de apenas 1 ano e 8 meses. Tanto ele quanto sua mãe – a dona de casa Gislaine, de 27 anos – já têm experiência em missões da Operação Sorriso.

Onze meses antes, ele fez a primeira cirurgia para a correção da fissura labial bilateral com o time de médicos da ONG. E agora, eles estão de volta para tentar conseguir a segunda cirurgia, dessa vez para fechar o palato do garotinho.

A simpatia do pequeno rapaz é cativante; não tem um voluntário que passe ao lado de Pietro sem retribuir seu sorriso aberto com um aceno de mão, um carinho ou simplesmente outro sorriso de volta.

E mesmo com todo esse carisma, o pai de Pietro nunca se interessou pelo garoto. Gislaine conta que ele sabe que tem um filho, porém nunca deu bola. “Mas eu me viro muito bem, viu? Não falta nada para o meu filho,” conta. 

Ambos moram com a mãe dela em Machadinho d’Oeste (RO), próximo à fronteira com o Mato Grosso. A viagem até a capital rondoniense levou 6 horas de ônibus. Ao chegarem em Porto Velho, foram recebidos pela irmã de Gislaine, que mora na cidade e os abrigou durante a missão na outra ocasião também.

Gislaine tem uma história curiosa: só descobriu que estava grávida no 7º mês de gestação. “Não sentia nada e continuei usando minhas roupas normalmente,” lembra. “Até que um dia minha mãe disse: você viu que sua barriga tá crescendo?”

O susto não a impediu de realizar os exames de pré-natal. A notícia da gravidez inesperada veio acompanhada de outra surpresa: seu bebê nasceria com fissura labiopalatina. Ela ficou desesperada na hora em que o médico a comunicou. “Logo pensei no pior; que o Pietro não ia conseguir comer, mamar... enfim, sobreviver,” diz.

E Gislaine também imaginou que precisaria viajar para outros estados para conseguir a cirurgia reparadora para seu filho, pois em sua cidade natal não existe o tratamento especializado para a má-formação.

Quando questionada sobre o motivo de Pietro ter nascido com fissura, Gislaine enumera algumas possibilidades: o fato de não ter tomado as vitaminas necessárias desde o começo da gravidez, quando ela ainda não sabia que estava grávida; ou um primo seu que também nasceu com a mesma má-formação; ou ainda o mito, muito comum no norte e nordeste do Brasil, da chave no bolso. Reza a lenda que quando a mulher está grávida e coloca uma chave no bolso da camisa ou da calça, seu bebê nascerá com fissura.

Segundo ela, houve até quem tenha dito que Pietro nasceu com fissura bilateral, porque ela botou a chave tanto no bolso esquerdo, quanto no bolso direito da calça.

Entretanto, Gislaine desconfia dessas explicações e arrisca que o motivo mais lógico seria o fato de já ter um parente com fissura.

Logo após o parto de Pietro, ainda no hospital, ela viu um cartaz sobre a missão humanitária da Operação Sorriso em Porto Velho. “Fiquei mais tranquila quando soube que tinha tratamento perto de casa,” recorda.

A primeira cirurgia – o fechamento da fenda labial – aconteceu em fevereiro de 2018. “Aquela operação resolveu o problema estético, né? E agora é pra consertar a fala. Ele ainda não diz muita coisa, mas quero que ele comece falando direitinho já,” conta ela, sorridente.

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Pietro ainda não frequenta a escola, por isso Gislaine torce para que ele seja selecionado novamente para a cirurgia, de modo que quando ingressar na creche, já esteja falando bem e não sofra preconceito.

Um dia após a triagem dos pacientes, Gislaine recebeu a tão esperada notícia de que seu filho havia sido escolhido para operar mais uma vez.

No dia da operação, o rosto de Gislaine alternava momentos de alegria com tensão. Entregar seu filho pequeno na mão de médicos sempre gera uma expectativa enorme. E mesmo ela, que passou por isso há menos de um ano, precisou controlar a emoção.

A cirurgia correu tranquila e, duas horas mais tarde, ela foi chamada de volta ao centro cirúrgico para buscar seu bebê. O reencontro foi de fazer qualquer um chorar: ela o pegou nos braços e o acalentou, enquanto ele ensaiava um choro baixinho.

Alguns minutos depois, já no quarto, ela contemplava com uma ternura enorme no olhar o pequeno Pietro deitado na cama. “Não vejo a hora dele falar”, ela deixou escapar, em um tom quase inaudível. “Queria agradecer todos vocês por terem dado esse presente pro meu filho,” completa.

“Toda criança que nasce com deformidade facial é nossa responsabilidade. Se nós não cuidarmos dessa criança, não há nenhuma garantia de que outra pessoa o fará.”

- Kathy Magee, cofundadora e presidente da Operação Sorriso