A menina mais amada do mundo

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A pequena Alicia Gabriela, de apenas 8 meses, é uma menina de sorte. Tem uma mãe dedicada, um pai amoroso, uma avó louca pela netinha e tios que cuidam dela com um carinho tocante. Parece a descrição de uma família comum. E é. O único detalhe que diferencia Alicia de qualquer outra criança é que ela nasceu com uma fenda labial.

A família inteira mora em um sítio, perto do pequeno município de Brejo Santo, no interior do Ceará. O pai de Alícia, Sirlânio, trabalha na roça e ampara sua esposa, Daniele, que teve paralisia infantil e tem o lado esquerdo do corpo paralisado. Isso, no entanto, não a impede de realizar algumas tarefas, sendo uma delas a de cuidar da sua filhinha.

O casal ainda conta com uma ajuda de ouro: a tia, Gesika – irmã de Daniele – que é professora e seu marido, que se desdobram para auxiliar no que podem, seja cuidando de Alicia, seja ajudando Daniele, seja fazendo o que for preciso em casa.

Depois que engravidou, Daniele fez acompanhamento pré-natal, mas a fissura não foi detectada nos exames. Pelo contrário: havia possibilidade de Alícia ter alguma complicação decorrente da toxoplasmose – uma doença que pode causar cegueira ou atraso mental no bebê. A família esperou pelo pior.

Entretanto, o diagnóstico não se concretizou e a garotinha nasceu com uma fenda labial. A descoberta da má-formação foi na hora do parto. A notícia veio da boca da enfermeira: “Ela tem um buraquinho no lábio, mas existe tratamento.”

Gesika nunca tinha visto uma criança com fissura antes, então foi estudar sobre o assunto. Houve quem tenha falado para ela que a causa da fissura era que a mãe tinha colocado uma chave no bolso da camisa enquanto estava grávida, mas ela não acreditou. Após se aprofundar no tema, descobriu que era um problema genético.

Como há poucos registro de casos de fissura em Brejo Santo, a família foi inicialmente orientada por uma pediatra, que os instruiu em relação a vários aspectos importante, como a amamentação.

No entanto, a sugestão foi buscar tratamento específico em Fortaleza, quase 8 horas distante do sítio. “A gente foi algumas vezes pra consulta médica lá, mas a viagem era muito desgastante,” lembra Gesika. “Chegamos a passar fome esperando o carro da prefeitura pra voltar pra casa uma vez.”

Uma enfermeira de Brejo Santo avisou a família sobre a ida da Operação Sorriso à região do Cariri, no sul do Estado. Todos logo se organizaram para garantir que Alícia participasse do mutirão cirúrgico.

Os pais a levaram à triagem e a tia ficou responsável por acompanhá-la nos dias de cirurgia, caso ela fosse selecionada. Um dia após a triagem dos pacientes, chegou a notícia esperada há tantos meses. Alícia tinha sido uma das 52 pacientes selecionadas para cirurgia. “Chorei de alegria quando recebi a ligação dizendo que ela tinha passado”, recorda Gesika. “Em Fortaleza, ainda ia demorar meses para ela operar.”

Apesar da alegria pela cirurgia, a família estava apreensiva, pois a avó de Alicia estava internada na UTI de outro hospital em uma cidade vizinha. “A gente tem que ser forte nessas horas. Eu tô triste por não tá com a minha mãe, mas muito feliz pela Alicia ao mesmo tempo,” disse.

Gesika sabe que a cirurgia vai resolver não apenas a questão estética, mas também o problema do preconceito. Segundo ela, algumas pessoas já falaram que Alícia é doente e achavam que podiam ‘pegar’ a fissura se tocassem na garotinha.

Ao chegar no hospital para a internação, quem via Gesika tinha certeza de que ela era a mãe de Alicia, tamanho o carinho e cuidado com a bebê. E, para Gesika, Alicia é como uma filha mesmo. Casada há 12 anos, Gesika abortou duas vezes, sendo que na segunda gestação, sua vida também correu perigo. “A Alícia é a filha que nunca tive. Sempre cuidei e sempre vou cuidar dela com todo o amor do mundo.”

A cirurgia correu tranquila e quando o momento mais esperado chegou – o reencontro pós-operatório entre tia e sobrinha – parte da equipe médica parou o que estava fazendo para testemunhar uma cena linda: Gesika sentada ao lado da maca, segurando a mão de Alícia e olhando para o novo rostinho dela. “Eu já achava ela linda, mas agora ficou ainda mais!”

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Gesika fez questão de demonstrar gratidão à equipe médica que cuidou de Alicia: “Abaixo de Deus, tão os voluntários. São anjos do sorriso”. Ela soube que os voluntários vieram de vários cantos do Brasil e do mundo, e elogiou a receptividade e o empenho de todos.

A noite depois da cirurgia transcorreu bem e no dia seguinte, logo após a alta, Gesika era só sorrisos enquanto esperava o carro da prefeitura vir buscá-las. Com Alicia nos braços, dormindo tranquilamente, ela já imaginava os próximos passos da garota. “Tenho certeza que ela vai ser muito feliz daqui pra frente. Ela já era muito amada por todos nós e agora vai fazer ainda mais sucesso com as outras pessoas. É a menina mais amada do mundo!”

 

“Toda criança que nasce com deformidade facial é nossa responsabilidade. Se nós não cuidarmos dessa criança, não há nenhuma garantia de que outra pessoa o fará.”

- Kathy Magee, cofundadora e presidente da Operação Sorriso