O poeta sorridente

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“A pessoa vê o seu sorriso, mas não imagina o que você passa por dentro.” Foi com essa frase que um sorridente Guibson dos Santos, de 22 anos, começou a conversa. “Eu nasci assim, com essa alegria toda, mas não é sempre que o sorriso reflete o que você tá sentindo de verdade”.

Guibson nasceu em Altamira, um município ao sul do Pará, cravado às margens do rio Xingu. Os exames de ultrassom feitos por sua mãe, Iva, durante a gravidez, não mostraram a fissura labial. A descoberta foi na hora do parto e veio da boca da enfermeira: “Mãezinha, seu bebê nasceu com um problema no lábio, mas fique tranquila porque tem solução.”

A primeira cirurgia foi feita quando Guibson tinha apenas 6 meses de idade. Algumas pessoas achavam que era loucura ela deixar operarem seu filho tão pequeno, mas ela confiou na equipe médica e tudo saiu bem.

Mas apenas uma cirurgia não foi o suficiente, tanto que sua mãe o levou até Belém, poucos anos mais tarde, para tentar conseguir a segunda operação. Porém, dessa vez o desfecho não foi o esperado. E, diante do baque da resposta negativa, Guibson desistiu de buscar o tratamento necessário.

O tempo passou e a necessidade de reparar o lábio cresceu junto com Guibson. Veio a escola e, com ela, todas as dificuldades conhecidas por quem nasce com fissura labiopalatina: apelidos maldosos, bullying e tristeza.

Nos piores dias, Guibson voltava para casa chorando e era consolado por sua mãe. “Ficava com o coração apertado de ver meu menino sofrendo. Como mãe, dava apoio, colo... Mas por dentro doía em mim tanto quanto nele”, lembra Iva.

Guibson pensou até em largar o colégio, mas com o apoio familiar e o ânimo que carrega naturalmente dentro de si, seguiu em frente. “Quanto mais atenção você dá para as provocações, mais eles te provocam. Então uma hora aprendi a relevar”, diz.

O garoto sorridente cresceu e se formou. Após a conclusão do Ensino Médio, fez um curso técnico em agropecuária. Seu sonho é ingressar na faculdade de agronomia, zootecnia ou veterinária e, enquanto estuda, ajuda também a mãe a vender os quitutes preparados em casa. “Minha mãe faz o melhor pastelzinho da região. E tem sacolé também,” fala, rindo. Iva gargalha e complementa: “E esse rapaz aí arrumou um monte de cliente novo pra mim! Ele vende demais!”

Guibson é um rapaz alegre e bom de papo, mas nem a simpatia e o constante sorriso no rosto impediram que ele continuasse sofrendo preconceito. Recentemente, ao passar por uma loja com um anúncio de emprego na porta, ele entrou para saber mais. A atendente olhou para seu rosto e disse que a vaga já estava fechada. Guibson sentiu na pele a discriminação.

A vida dele começou a mudar em uma tarde qualquer, enquanto assistia TV e viu uma matéria sobre a ida da Operação Sorriso a Santarém. Os amigos também viram a mesma reportagem e mandaram várias mensagens para seu telefone. “Fiquei muito feliz de ver todo mundo preocupado comigo,” lembra.

Ele buscou mais informações sobre a missão e soube que a fila começava muito antes da abertura dos portões. Assim, programou a longa viagem de ônibus de Altamira a Santarém – 12 horas! – para chegar na escola onde a triagem aconteceria bem cedo.

Às 2h da manhã, lá estavam ele e sua mãe para garantir o 3º lugar na fila. Para descansar, ele abriu uma rede na porta da escola. Poucas horas depois, a fila já dobrava a esquina.

Sua simpatia atraiu a atenção de Ozineide, que ocupava a 2ª posição na fila (e aparece na foto abaixo).

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Conversando, descobriram afinidades e brotou dali uma amizade que parecia já existir há anos. As longas horas até a abertura dos portões passaram voando. E, nesse meio tempo, apareceu até uma equipe de TV, que o entrevistou.

Guibson confessa que ficou emocionado na triagem dos pacientes, ao ver tantas crianças e adultos com a mesma malformação que ele. “É bom ver gente igual a você, que não fica te olhando de canto de olho.”

As nove consultas médicas pelas quais passou atestaram que sua saúde estava em perfeitas condições para realizar a cirurgia. Quase 12 horas após ter chegado na fila, Guibson retornava ao abrigo para aguardar a tão esperada notícia, que seria divulgada no dia seguinte.

Nesse meio tempo, Guibson seguiu amealhando fãs pela cidade! Ao sair para comprar um chip de telefone, o vendedor o reconheceu por causa da entrevista na televisão e falou que estava torcendo para que ele conseguisse a cirurgia.

Quem também estava torcendo muito por ele era sua amiga Ozineide, que estava hospedada no mesmo abrigo.

No dia seguinte, a psicóloga da equipe da Operação Sorriso foi entregar a boa nova ao jovem: ele tinha sido selecionado para a cirurgia!

Mas a conquista tão sonhada teve uma comemoração muito discreta; Ozineide não havia sido selecionada. “Queria pular de alegria, mas ao mesmo tempo sabia que precisava consolá-la. Quando ela recebeu o ‘não’, logo me veio a lembrança lá de Belém, de quando eu também ouvi um ‘não’ e fiquei muito triste,” recorda ele. Ozineide ficou tão chateada, que queria ir embora naquele instante, mas foi convencida pelo amigo a ficar calma e conversar com a psicóloga.

E, como se fosse um milagre, a psicóloga descobriu que havia tido uma confusão com os nomes e Ozineide havia sido selecionada, sim! Ela e Guibson seriam operados, inclusive, no mesmo dia!

Já no hospital, a noite anterior à cirurgia foi de muita expectativa. Guibson, acompanhado da mãe, ficou sentado no sofá do corredor da enfermaria, assistindo os demais pacientes descerem para a cirurgia e voltarem pouco depois, com um sorriso novinho em folha. E a cada paciente que passava, ele se imaginava no lugar, pensava em como ficaria seu sorriso, em toda a trajetória até chegar à missão da Operação Sorriso.

No dia seguinte, Ozineide e Guibson desceram juntos à sala da psicóloga – a última parada antes de entrar no centro cirúrgico. Os momentos que antecederam a cirurgia foram de muita conversa.

Ozineide foi chamada primeiro e Guibson ficou junto com sua mãe, à espera de ouvir seu nome. E esperou, esperou, esperou... Até que por volta das 18h, ele foi informado de que sua cirurgia seria adiada para o dia seguinte, por conta de um atraso na operação anterior à sua. Guibson abriu o já conhecido sorriso, disse que não tinha problema e fez um pedido: “Se eu só vou operar amanhã, me traz duas marmitas, por favor?”

Seu desejo foi prontamente atendido. Guibson retornou para o quarto, jantou, trocou de roupa e desceu novamente até o centro cirúrgico para esperar a saída da amiga Ozineide. O nervosismo era aparente; ele arrumava a gola da camisa polo, mexia no celular, arrumava de novo a gola da camisa...

O sorriso tímido foi desabrochando lentamente ao ver as portas se abrirem. Ozineide fez o sinal de ‘joia’ com o dedo. O alívio estava escancarado no olhar do jovem, cujo acanhamento não permitia que ele extravasasse a alegria de ver a amiga operada.

Guibson seguiu ao lado da maca dela até o quarto. Chegando lá, se certificou de que estava tudo certo, se despediu da amiga e foi para seu quarto, sonhar com a própria cirurgia. Mas não sem antes fazer mais uma boa ação: enquanto esperava Ozineide sair do centro cirúrgico, Guibson ficou sabendo que o acompanhante de outro paciente precisou deixar o hospital. Imediatamente, ele disse que cuidaria do paciente durante a noite e pediu que mudasse de quarto para ficar junto do novo amigo.

A noite correu tranquila e na manhã seguinte, Guibson desceu para o centro cirúrgico com seu característico sorriso. “Aqui na Operação Sorriso, vocês falam que é um sorriso de cada vez. Chegou a vez do meu”, disse.

Ao ouvir a enfermeira chamar seu nome, ele deu um último abraço na mãe, ganhou dela um beijo de boa sorte, tirou uma foto com a equipe de voluntários e caminhou tranquilamente para a sala indicada.

Ao acordar da anestesia, ele juntava as mãos como se fosse rezar, como forma de agradecer a equipe. Um paredão de voluntários se formou na sala de recuperação para assistir o momento em que sua mãe entrou e viu o novo sorriso do filho. Todos – Guibson, sua mãe e voluntários – choraram juntos ao ver a alegria estampada no rosto do jovem se vendo no espelho pela primeira vez com o lábio reconstruído.

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A cirurgia, segundo ele, significava a realização de seu maior sonho. E esse sonho virou realidade no dia 24/08/18. A felicidade pela conquista desse objetivo acabou se transformando em um lindo poema, escrito enquanto ele se recuperava:

 

Sonhos

Lutar pelos seus sonhos é ver a vida diferente,

Ver que está tudo ao seu alcance.

Uma coisa forte que nasce dentro da gente,

Algo que todos podem conseguir.

Até alguém chegar e dizer:

Pare! Chega! Acabou!

E você desanima,

Terminando o que mal começou.

Essas coisas nos fazem desistir,

Até quem sabe deixar de sorrir.

Deixar o grande sonho ficar na lembrança

E quanto a ele, não ter esperanças.

Até que chega alguém e diz:

Vamos! Você pode! Você consegue!

Você levanta e continua a seguir

Algo gostoso demais de sentir.

Logo depois, você consegue.

E quando percebe,

Já voltou a sorrir.

 

“A pessoa vê o seu sorriso, mas não imagina o que você passa por dentro.” Após a cirurgia, a famosa frase de Guibson ganhou um novo sentido. O novo sorriso, agora reconstruído, não ia mais esconder a dor do preconceito, a vergonha pela aparência. A partir de agora, seu sorriso não precisará esconder mais nada; será apenas o reflexo de sua alma leve, bondosa e cheia de sonhos para o futuro.

Os planos agora incluem cursar a tão sonhada faculdade e casar. “E ajudar todos os pacientes que encontrar! Vou buscar lá na minha região e avisar pra todo mundo sobre a próxima missão,” promete. “Ah, e também quero abrir uma loja pra minha mãe vender as comidas dela!” Pelo visto, com o ânimo renovado, a lista de novos desejos não vai mais parar de crescer...

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Se você gostou dessa história e quer ajudar mais crianças a terem a mesma oportunidade que o Guibson, clique aqui para fazer uma doação.

“Toda criança que nasce com deformidade facial é nossa responsabilidade. Se nós não cuidarmos dessa criança, não há nenhuma garantia de que outra pessoa o fará.”

- Kathy Magee, cofundadora e presidente da Operação Sorriso